• 12 Abril, 2017 às 21:24

    (…) Num jardim, junto a uma zona residencial em São Mamede Infesta, um caminho de terra por entre a vegetação desmascara que aquele é um local de saída, após o salto. Numa escola, é subtil a forma como o telhado já dobra na ponta – marcado pelos pés que lá pousam para saltar.

    É da ponta deste parapeito que dois traceurs espanhóis vão saltar. Fixam o ponto de aterragem. Mãos estendidas, olhos colocados no muro uns (bons) metros abaixo. Tão rápido como tomaram a decisão: uns passos atrás e salto! Já estão em cima do muro, joelhos flectidos e nas pontas dos pés. “Que estouro! Que adrenalina!”, comenta o galego Yoel Duran.

    André está a uma distância considerável do chão, uns bons centímetros acima das cabeças de qualquer um dos traceurs. Como saltam espaços de fazer saltar as próprias vertigens? Como apoiam os dois pés em larguras tão pequenas que cabe apenas um? Como ainda saltam a seguir? “Mais do que físico, o parkour é muito psicológico. Não nos adianta fazer um salto de oito pés no chão, se não consigo fazer um de seis num ponto mais alto”, descreve Márcio. Começam a treinar a confiança no chão. Testam a que distâncias chegam. Só depois se aventuram em altura, quando a confiança já lá está.

    “Nós já medimos estas distâncias de forma inconsciente. Eu sei, por exemplo, que daqui ali são sete pés. Já faz parte de nós, vemos o espaço de uma forma diferente” – traquejos ganhos pela experiência, nota o traceur.

    Aqui, cada centímetro conta entre uma aterragem perfeita e uma queda. E aprende-se a saber as distâncias de cabeça e a calcular riscos no espaço de segundos. Muitos contam até três mas acabam por saltar antes, não vá a contagem antecipar o medo. “Na maioria das vezes que se tenta, não se salta logo”, repara Márcio. Um erro pequeno pode facilmente custar lesões ou sérios ferimentos.

    É também preciso um autêntico jogo do autoconhecimento. “É preciso conhecermos bem as nossas capacidades, mas também as nossas limitações”, destaca Márcio. Ter capacidade de discernir até onde podem ir, a partir de onde é longe demais. Medir riscos. E, às vezes mesmo, enfrentá-los. (…) Abana os braços para a frente e para trás. Flecte os joelhos. Bate com as palmas uma na outra. Limpa as sapatilhas. Respira fundo. Os pés têm que estar limpos. Assim como as mãos. E a mente. 

    fonte: https://www.publico.pt/2016/09/25/local/noticia/parkour-quanto-mais-longe-do-chao-mais-e-a-cabeca-quem-manda-1744973

    “Parkour é uma forma de de adaptação ao ambiente em seu redor para todos os tipos de arquitetura. Trabalha em técnicas através do treino físico para superar obstáculos. A repetição traz a confiança”  DAVID BELLE, 43 anos, desportista francês considerado um dos criadores do Parkour.